Por que a vida vive me atropelando?
É sempre assim. Mesmo que eu faça como as mães ensinam as crianças e só atravesse o caminho depois de olhar para os dois lados, não adianta, acabo sempre atropelada pela vida.
Desde pequena sempre tive uma sensação de urgência, de que não ia dar tempo para fazer e aprender tudo o que queria. Diziam que isso era coisa de criança curiosa, amiga íntima de um tal de "Bicho Carpinteiro", coisa de quem vivencia a Primavera e começa a desabrochar. Diziam que com o tempo tudo isso ia passar.
Quando o Verão chegou, continuei abafada. Queria acordar com o sol para tornar os dias mais longos e ter mais tempo para aproveitar. Foi aí que surgiram mais prazeres, descobertas, incertezas, questionamentos e muitas praias novas a conquistar.
Quem não gosta de se sentir Sol?
E quem aceita ver o Verão passar?
Quando percebi que a exuberância do Verão já havia passado, que as folhas do meu jardim estavam amareladas e que os frutos começavam a se desgarrar de suas mães se espalhando livres pelo chão, tive a confirmação: a vida é muito curta para tudo que ainda me falta realizar.
A paisagem agora é outra. Já não existem tantas cores como na Primavera e os dias não são tão belos como no Verão. Isso assusta...
Como vou conseguir correr atrás da vida sem a beleza da Primavera e a força do Verão?
Eu nunca tinha sentido algo igual: tanto medo, tanta estranheza, tanta insegurança...
Dentro de mim estava tudo em transformação. Eu me sentia espremida entre o Verão e o Inverno, sobrevivendo às mudanças bruscas no tempo e à diminuição drástica da umidade no ar.
Minhas cores denunciavam a passagem do tempo e tudo era novidade. Meus dias e minhas noites pareciam ter a mesma duração, o que me fazia brigar com o sono com medo de perder alguma coisa importante, não viver o suficiente antes de o Inverno chegar. Eu ainda não tinha percebido que os sonhos de antes já faziam parte da minha realidade. De agora em diante era preciso reunir forças, dormir, me cuidar, se não quisesse sonhar apenas de olhos fechados.
Não era mais tempo de correr atrás da vida. Era preciso mudar hábitos, dormir mais cedo e levantar antes da vida, ganhando dianteira e correndo à sua frente, para conseguir chegar a algum lugar.
Sei que não serei nunca mais uma leve Margarida, uma bela Rosa ou uma Begônia colorida. Mas descobri que ainda posso ser Flor-de-Maio, uma plantinha resistente e um pouco sem graça, que só de pirraça ignora as regras e a Primavera para florir sozinha no Outono, para não ter que se preocupar com outras flores mais belas.
Eu sei que essa é tecnicamente a estação das colheitas, mas descobri que é possível Florescer no Outono e deixar de ser atropelada pela vida se eu conseguir me adaptar.